“A Gorda” de Isabel Figueiredo

Não deve ser um grande choque tendo em conta o nome do livro, mas esta obra de Isabel Figueiredo fala sobre a vida de Maria Luísa que, como já deu para perceber, não era magra. Esta característica física foi algo que sempre a incomodou. O livro não é apenas sobre o excesso de peso da personagem, mas sim sobre as suas experiências, - boas e más - as relações com os homens, com a família e com ela própria.




Sinopse:


Maria Luísa, a heroína deste romance, é uma bela rapariga, inteligente, boa aluna, voluntariosa e com uma forte personalidade. Mas é gorda. E isto, esta característica física, incomoda-a de tal modo que coloca tudo o resto em causa. Na adolescência sofre, e aguenta em silêncio, as piadas e os insultos dos colegas, fica esquecida, ao lado da mais feia das suas colegas, no baile dos finalistas do colégio. Mas não desiste, não se verga, e vai em frente, gorda, à procura de uma vida que valha a pena viver.


“Eu era uma miséria de mulher, um torpor, uma dor que já nem dói.”



Opinião:


A Gorda é um dos livros contemporâneos mais elogiados da literatura portuguesa. Como eu não resisto a um bom livro e como também eu tenho inseguranças em relação ao corpo, não pensei duas vezes e comecei a ler a obra de Isabel Figueiredo. E dei por mim a ler um livro cru, direto e, em certos aspetos, completamente devastador. “Todas as personagens, geografias e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade”. É esta advertência que a autora nos dá logo no início da obra. O livro é narrado na primeira pessoa e cada capítulo tem o nome de um compartimento da casa. Porquê? Porque foi dentro das quatro paredes que Maria Luísa vivenciou muitos dos momentos que a marcaram e que a tornaram na pessoa que é hoje. Começamos pela porta de entrada e terminamos no hall. Maria Luísa é professora do ensino secundário e sempre viveu com excesso de peso. Ao longo do livro, a personagem conta-nos as humilhações na escola, os desgostos de amor, a relação que tinha com os pais, com os (poucos) amigos que teve e com os vários homens que passaram pela sua vida. No entanto, há um que a fez sofrer mais do que os outros todos: o David. Foi o amor louco de Maria Luísa, daqueles que só encontramos uma vez na vida e que acabou da pior forma possível. Trocou-a por uma rapariga mais nova e, fisicamente, mais “agradável”. Trocou-a porque tinha vergonha de ser visto com ela. Por ser gorda. E se Maria Luísa não fosse gorda? Será que o desfecho teria sido o mesmo?


“Eu não era uma mulher, mas uma massa gorda disforme de carne sem valor.”


Maria Luísa viveu a vida com inseguranças em relação ao seu peso. Quando era mais nova foi gozada na escola e já adulta perdeu o homem que amava porque os amigos gozavam com ele. O excesso de peso afetou-a todos os dias, até já não aguentar mais. Maria Luísa era uma mulher gorda, mas deixou de o ser. Logo no início do livro sabemos que ela fez uma gastrectomia. Só porque passou a vida a ser rotulada como gorda.


“Quarenta quilos é muito peso. Foram os que perdi após a gastrectomia: era um segundo corpo que transportava comigo. Ou seja, que arrastava. Foi como se os médicos me tivessem separado de um gémeo siamês que se suicidara de desgosto.”



A Gorda não é um livro sobre excesso de peso. É sobre o impacto que a nossa aparência pode ter na nossa vida. É sobre os rótulos que nos dão e que nos afetam todos os dias. Podia chamar-se A Magra, A Feia, A Alta ou a Baixa. Não faria diferença. Todos temos inseguranças e há qualquer coisa de Maria Luísa em cada um de nós. É um livro pesado, mas necessário. Um livro que nos fala da vida, de inseguranças, de ambições e desejos. E, mais importante, que nos relembra que somos muito mais do que um corpo.


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