Estamos em confinamento, e agora?

Não é fácil ficar fechado em casa. Não é fácil vermos o tempo passar sem podermos fazer nada e ver oportunidades a fugir por entre os dedos. O tempo não para, mas nós fomos obrigados a parar. Outra vez. Assim, sem mais nem menos, acabamos todos por perder um ano das nossas vidas. E pode não ser nada fácil lidar com isso. A mesma rotina todos os dias, o aumento do stress e ansiedade e o sentimento de impotência por vermos o país no estado que está e não podermos fazer nada. Aliás, a única coisa que podemos fazer é, de facto, ficar em casa. Não há ajuda maior que essa. E era tão bom que todos fizessem a sua parte, até porque há tanta coisa que podemos fazer dentro destas quatro paredes.


Créditos: Borja Suarez


Sempre fui uma pessoa caseira, mas quando fomos mandados para casa em março de 2020 e fiquei com o estágio suspenso, dei por mim a pensar: e agora? Não era um fim-de-semana, nem era um mês de férias. Eram dias sem um fim à vista. E todos eles fechados em casa. Não tinha estágio, não tinha trabalho e não tinha aulas. E sem nada para fazer, o meu maior medo era passar os dias a procrastinar, ao ponto de nem me lembrar qual era o dia da semana em que estávamos e almoçar às 18 horas ainda com o pijama vestido. Mas assim que apanhei o último comboio para vir para casa, disse logo a mim mesma que não podia deixar que isso acontecesse. Que não era por estar em casa que não podia ser produtiva. Então todos os dias punha despertador, tomava banho, tirava o pijama e punha uma roupa confortável. Arranjei finalmente coragem para fazer uma arrumação a fundo ao meu quarto e colocar de lado tudo o que estava a mais. E era muita coisa. Fui mais forte que a preguiça e criei uma rotina de exercício físico em casa durante, pelo menos, 40 minutos. Peguei no meu relatório de estágio e, praticamente todos os dias, acrescentava uma coisa ou outra. Afinal, tinha “todo” o tempo do mundo. Vi filmes que estavam na minha lista há anos mas que ainda não tinha tido tempo de ver. Voltei a viciar nas séries e perdi a conta à quantidade de personagens novas que conheci. Devorei livros como nunca tinha feito anteriormente, li finalmente os clássicos que estavam a apanhar pó na prateleira e conheci novos escritores. Experimentei cursos online porque o saber não ocupa lugar. E também procrastinei, mas sempre de forma controlada para que a preguiça não se apoderasse do meu corpo. Tentei ao máximo não me ir abaixo e, felizmente, tive a sorte de terminar o confinamento com um estado de espírito melhor do que aquele que eu tinha quando tudo isto começou. Foi o tempo que eu precisei para colocar as ideias em ordem, respirar fundo e fazer uma pausa de tudo aquilo que me estava a consumir. Foi o ano sabático que sempre quis tirar mas, por qualquer motivo, nunca o fiz. Mantive a calma e serenidade numa altura em que a azáfama se instalou no país. E o confinamento fez-me perceber que eu sou a minha melhor companhia.


No entanto, tenho noção de que nem toda a gente lida com este isolamento social da mesma forma. Estamos agora num segundo confinamento e houve pessoas que nem sequer chegaram a sair do primeiro por serem doentes de risco. O mundo como o conhecíamos mudou, aquilo que nos era familiar e dava sensação de segurança foi posto em causa, os níveis de stress e ansiedade aumentaram, a tristeza e a solidão tornaram-se sentimentos constantes no dia a dia. E, assim como a Covid-19, isto pode afetar qualquer um de nós. Nem todas as casas são um lar. E aquilo que devia ser um sítio seguro, pode ser o mais perigoso deles todos. O isolamento protege-nos da Covid-19, mas não nos protege do resto. E a saúde mental nunca pode ser deixada de lado. Mantenham-se em contacto com os vossos amigos e família. Nunca sabemos o que se passa na cabeça das outras pessoas e uma mensagem pode fazer toda a diferença. Estejam presentes, mesmo estando longe. E mantenham-se em casa. Isto não é brincadeira nenhuma.


Não sofram em silêncio, até porque não estão sozinhos. Para todos os que precisarem de uma voz amiga, estas são as linhas de apoio disponíveis:


Linha de Apoio Psicológico do SNS24: 808 24 24 24


SOS Voz Amiga: 213 544 545 | 91 2802 669 | 963 524 660

Horário: Todos os dias das 16h às 24h


Linha Conversa Amiga: 808 237 327 | 210 027 159

Horário: dias úteis das 15h00 às 22h00 | fins de semana das 19h00 às 22h00


Vozes Amigas de Esperança de Portugal: 222 030 707

Horário: Todos os dias das 16h às 22h


Voz de Apoio: 225 506 070

Horário: Todos os dias das 21h às 24h

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