“O Ano Sabático” de João Tordo

João Tordo foi um dos escritores que marcou presença na minha lista de melhores leituras de 2020 com “A Mulher que Correu Atrás do Vento”, que me desgastou emocionalmente. Entretanto passaram-se alguns dias e, já recuperada, achei que estava pronta para voltar a mergulhar - e a afundar-me - no universo de João Tordo. Desta vez, o livro escolhido foi “O Ano Sabático”.



Sinopse


Depois de treze anos de vida desregrada no Québec, Hugo, um contrabaixista de jazz, decide tirar um ano sabático e regressar a Lisboa, onde espera reencontrar o equilíbrio junto da família. Porém, logo numa das primeiras noites, assiste ao concerto de Luís Stockman - um pianista que se tornou recentemente famoso -, e a almejada paz transforma-se no pior dos pesadelos: Stockman toca um tema inédito que Hugo conhece bem demais, pois é o mesmo que vem escrevendo há anos na sua cabeça. Quando o começam a confundir na rua com o pianista - e a própria mãe lança a dúvida sobre a sua identidade -, Hugo iniciará uma busca obsessiva da verdade e do seu duplo, entrando num labirinto de memórias e contradições que o conduzirá a um destino muito mais funesto do que imaginara ao deixar Montreal. É nessa mesma cidade que Stockman desaparecerá, curiosamente, mais tarde, segundo nos conta o seu melhor amigo - o narrador deste romance - a quem cabe agora desmontar os acontecimentos, destrinçar fantasia e realidade e enfrentar as assustadoras e macabras coincidências que unem, como num espelho, a vida dos dois músicos.



Opinião


Sempre ouvi dizer que cada um de nós tem, pelo menos, um duplo. Há alguém igual a nós a passear algures pelo mundo. Por enquanto ainda não encontrei o meu, mas o mesmo não se pode dizer de Hugo, que se viu frente a frente com alguém fisicamente igual a ele. Como se isso não bastasse, essa pessoa - Luís Stockman - tocou exatamente a mesma melodia que Hugo andava a escrever há anos e que ainda não tinha conseguido terminar. Perante estas descobertas perturbadoras, Hugo foi à procura de respostas. Pelo caminho encontrou inseguranças e fragilidades. “Percebeu que sempre lhe faltaria alguma coisa; que era incompleto, insuficiente para si mesmo, e que, na verdade, tinha pavor de procurar essa coisa, uma vez que a procura corresponderia ao pior de todos os horrores”. Aquele que iria ser, supostamente, um ano de paz e de sossego, acabou por ser o oposto, com revelações inesperadas e uma redescoberta do seu passado e dele próprio.


“A imaginação substitui tudo aquilo que a memória rejeita”


O livro é uma junção de ficção e realidade. Alguns dos aspetos são autobiográficos e isso torna esta leitura muito mais emotiva e pessoal. É uma obra que mostra a busca pela identidade e que nos faz questionar a individualidade. Será que somos mesmo únicos neste mundo? Estas perguntas sem resposta invadiram a mente de Hugo que, a certo ponto, deixou de saber quem era e qual o seu lugar no mundo. Perdeu-se num labirinto de memórias e dúvidas e nós fomos com ele. Ficámos igualmente perdidos. É isso que João Tordo nos faz sentir em cada uma das suas obras. Completamente desamparados e a questionar tudo aquilo que sempre demos como garantido.


No meio disto tudo, se eu estava a pensar tirar um ano sabático, o melhor é pensar duas vezes. Ainda corro o risco de encontrar o meu Doppelgänger quando for a um concerto em Lisboa e ficar com a vida virada do avesso.

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