O machismo ignorante

Hoje é o Dia Internacional da Mulher. E por muitas conquistas e direitos que as mulheres tenham vindo a alcançar ao longo do tempo, a triste realidade é que o machismo ainda existe e muitas vezes nem sequer reparamos nas palavras machistas que saem da boca de pessoas que estão mesmo ao nosso lado. Tanto de homens como de mulheres. Hoje é o Dia da Mulher e por isso é o dia perfeito para falar sobre machismo ignorante.



E o que é isto de machismo ignorante?


Já todos estamos familiarizados com a palavra machismo e o que ela significa. Mas vamos relembrar: Machista é aquele que age e pensa em função da ideia que o homem domina socialmente a mulher. Machismo é a atitude de prepotência ou dominação do homem em relação à mulher. É o sexismo assente na noção de uma suposta superioridade do sexo masculino face ao feminino e uma doutrina que rejeita a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Há machistas em todo o lado e homens que não têm vergonha nenhuma de o ser. Homens que afirmam ao mundo inteiro que as mulheres só servem para estar na cozinha, que não têm capacidade para mais e que são boas é para satisfazer os homens na cama. Homens que criticam os “lábios muito vermelhos” das mulheres e as roupas que elas decidem usar, porque não estão de acordo com os seus ideais. Porque as mulheres têm que estar tapadas de alto a baixo, caso contrário “não são mulheres para casar”. No meu caso, até já tive um homem que me disse na cara que as mulheres, para ele, eram como os cães: não serviam para nada. Podia ficar aqui o dia inteiro a falar sobre machistas que não têm vergonha de o ser, mas hoje o assunto é um pouco diferente. Hoje quero falar sobre as palavras e expressões que ainda fazem parte do nosso vocabulário e às vezes nem temos noção que são completamente machistas. Há uma série de frases que já estão tão intrínsecas no nosso vocabulário que as pessoas acabam por nem perceber aquilo que estão realmente a dizer. Muitas dessas expressões reforçam a desigualdade e a violência entre géneros. São frases que ouvimos durante a nossa vida inteira e, por isso, achamos que não tem maldade nenhuma. E a isto eu chamo “machismo ignorante”. É aquele machismo que existe quando as pessoas - tanto homens como mulheres - dizem estas expressões sem querer e sem a consciência do que estão realmente a dizer. Também eu já usei expressões que, agora, percebo que eram completamente machistas. E todos os dias tento corrigir esses hábitos que ganhei desde pequena. A linguagem reflete a realidade em que vivemos e se na nossa linguagem há inúmeras expressões machistas, o que é que isso diz da nossa realidade? Não é preciso pensar muito para chegarmos à conclusão que ainda vivemos numa sociedade machista, por muito que digam que não. Sei que isto não vai mudar do dia para a noite, mas cabe a cada um de nós fazer com que a mudança aconteça. Podemos começar por abandonar estas expressões machistas e consciencializar as pessoas que as continuam a dizer como se “não fosse nada de mais” ou como se fosse apenas “uma expressão sem grande significado”.


Estas são algumas das expressões que já devíamos ter abandonado há muito tempo


“Estás de mau-humor, deves estar com o período”

Não, eu não estou de mau-humor só quando estou com o período. Não, não é por discordar ou questionar algo que tu disseste que eu estou de mau-humor ou com o período. Parem de tentar justificar o nosso comportamento e parem de pensar que todas as mulheres são afetadas da mesma maneira pelo ciclo menstrual. Querem falar do nosso comportamento perante uma determinada situação, façam-no sem mencionar a menstruação.



“Deve ter falta de um homem em casa” ou “É mal-amada”

Quantas vezes é que ouvimos dizer que a nossa colega de trabalho está de mau-humor porque tem falta de sexo ou não tem homem que a satisfaça em casa? Esta expressão dá a entender que a personalidade da mulher é determinada pelo amor e pela aprovação e presença de um homem. E isso está errado.


“És mulher, tens que fazer as tarefas domésticas”

Se tens um irmão, mais novo ou mais velho, certamente já ouviste esta expressão. Ou quando é para pôr a mesa ou fazer qualquer outra tarefa doméstica, chamaram apenas um membro da família - a mulher - quando há outros que também têm mãos para a fazer. A ideia de que a mulher é a única que pode fazer as tarefas domésticas já está bem ultrapassada. Está na hora de deixarmos de assumir que o lugar da mulher é na cozinha.


“Hoje ajudei a minha mulher a arrumar a casa”

À primeira vista, esta frase não parece ter nada de mal, muito menos parece ser machista. Um homem a ajudar a mulher? Que maravilha! Mas foquemos na palavra “ajudei”. O verbo “ajudar” é um dos preferidos dos machistas. Significa que só faz quem quer e não se trata de nenhuma obrigação. A questão é que, ao dizerem que ajudaram a mulher a fazer algo, significa que estão apenas “a fazer um favor”. Como já percebemos, as tarefas domésticas não são exclusivas para as mulheres. Vocês não nos estão a fazer nenhum favor.


“Prefiro trabalhar com homens, as mulheres são muito difíceis”

É triste ouvirmos esta expressão especialmente da boca das mulheres. Devíamos estar a combater o machismo e não a criticar as mulheres a torto e a direito. “Não quero trabalhar com mulheres porque são mandonas, porque quando estão com o período estão de mau humor, porque são coscuvilheiras”. Porque isto, porque aquilo. Não. O mais provável é serem vocês os conflituosos. Se calhar deviam era trabalhar sozinhos.


“Jogas como uma menina”

Esta expressão e muitas outras do mesmo género dizem-se ao homens, mas não é por isso que deixam de ser machistas. Mas ele joga como uma menina porquê? O que é que queres dizer com isso? Que uma mulher joga mal? Que uma mulher não tem capacidade para esse desporto? Acho que já está na hora de deixarmos de lado essa ideia de que as mulheres não são boas no desporto só porque são mulheres. Já se provou que isso não é verdade. Ainda ontem duas mulheres portugueses - Patrícia Mamona e Auriol Dongmo conquistaram a medalha de ouro nos Europeus de Atletismo.


“Ela é maria-rapaz”

Admito que esta expressão é uma das que mais me faz confusão. Maria-rapaz porquê? Porque se veste como quer? Porque brinca mais com os meninos? Porque prefere jogar futebol do que brincar com as barbies? Uma mulher não deixa de ser mulher por ter gostos diferentes ou por se vestir de uma forma menos feminina. Nem todas as mulheres têm de usar vestidos ou saias cor-de-rosa. Deixem as pessoas serem como são e deixem de rotular as meninas, principalmente quando ainda são umas crianças.


“Como é que uma mulher bonita como tu está sozinha” ou “com essa atitude nunca vais conseguir ninguém”

E qual é o problema de estar sozinha? E o que é que tem se eu não conseguir arranjar ninguém? Não sabia que o nosso propósito de vida era apenas encontrar um homem. Há quem não se importe de ficar sozinha. Essa ideia de que as mulheres têm de arranjar um homem já está ultrapassada. Lamento informar-vos, mas o casamento já não faz parte do plano de muitas mulheres.


“Vais sair assim à rua? Os homens não gostam disso”

Esta é mais direcionada para as mães. Acho que está na altura de deixarem de dizer isso às vossas filhas. Ou ainda acham que as mulheres se vestem ou se maquilham para agradar os homens? E se o homem deixar de gostar da vossa filha só porque não está tão arranjada, então é provável que não seja o homem certo.


“As mulheres não dizem palavrões”

Foda-se, eu sou mulher e digo os palavrões que quiser. Se as mulheres do Norte te ouvirem dizer isso, não sei se sobrevives mais um minuto. Se for um homem a dizer asneiras já não há problema? É só com as mulheres? É porque elas têm de ser “queridas” e “fofinhas” para agradar um homem? Essa ideia de que a mulher tem de ser sensível está completamente errada. Digam os palavrões que quiserem. Não são menos mulheres por isso.


A lista podia continuar, mas por hoje já chega. Acho que deu para perceber a quantidade de expressões machistas que, infelizmente, ainda ouvimos praticamente todos os dias. Está na hora de mudarmos o nosso vocabulário, de nos educarmos e educar as pessoas que estão à nossa volta. É uma mudança tão fácil e que pode fazer toda a diferença. Está na hora de deixarem de dizer que já não existe machismo. Só porque não o veem, não significa que ele não esteja por aí. É real e está bem perto de nós. Está na hora de mudar esta mentalidade machista e estes valores que estão intrínsecos na nossa sociedade e que passam de geração em geração. Está na hora!

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