O medo de ser mulher quando se viaja sozinha

É cada vez mais comum vermos mulheres a viajar sozinhas, não só por motivos de trabalho, mas apenas por lazer. A liberdade de se fazer o que quiser, a falta de companhia, as oportunidades de conexão interior e a oportunidade de fazer novos amigos são alguns dos motivos para pegar nas malas e fazer uma viagem sozinha. E tudo isto é muito bonito. Até recebermos olhares de homens e comentários desconfortáveis enquanto passeamos sozinhas pelas ruas. Se já é mau quando acontece na nossa própria cidade, noutro país é ainda pior.


Créditos: Rosa Friend


Claro que há cidades mais perigosas que outras e há sempre cuidados extras a ter se formos mulheres a viajar sozinhas. Hoje vou contar a minha experiência que, apesar de ter sido curta, foi o suficiente para perceber que nem tudo é um mar de rosas. Sempre quis fazer uma viagem sozinha, para me redescobrir e para provar a mim mesma que sou capaz de aproveitar aquilo que mais gosto de fazer mesmo não tendo companhia. No entanto, neste caso, eu ia fazer esta viagem com outra pessoa. E como imprevistos acontecem, à última da hora a pessoa disse-me que, afinal, não podia ir comigo. Depois de pensar e repensar, decidi que isso não ia ser um impedimento para eu fazer esta viagem. A oportunidade de visitar outro país sozinha surgiu de repente e ainda bem que assim foi. Caso contrário, não sei até que ponto teria coragem para o fazer, por muito que o quisesse. E foi assim que peguei nas minhas malas, fui até ao aeroporto e apanhei um avião até Roma, onde fiquei durante quatro dias. Aquele nervoso miudinho era inevitável, até porque nunca fui uma pessoa de fazer as coisas sozinha. Sempre fui muito dependente dos outros. Mas lá fui eu, toda feliz da vida, porque ia respirar o ar puro de outro país. Cheguei por volta da meia noite ao centro da cidade e andei um pouco a pé até chegar ao meu hostel. Durante o caminho, senti medo. Por ser de noite, por ser mulher, por estar sozinha. Não me senti segura até chegar ao hostel, onde fui muito bem acolhida. No entanto, se o fizesse outra vez, teria optado por ir para um hotel, mesmo que fosse mais caro. Não é que a experiência tivesse sido má, mas fiquei num quarto com mais três homens e por isso não consegui estar completamente à vontade. Felizmente nada de mau aconteceu e ainda fiz amizade com um israelita que também estava lá de passagem. Mas depois da experiência que tive num hostel em Viena (com uma amiga), em que acordei a meio da noite com um homem a tocar-me na barriga e a olhar para mim, decidi que não ia voltar para um hostel com quartos mistos. Portanto, fica aqui o meu primeiro conselho para quem é mulher e quer viajar sozinha: se for possível, fiquem num hotel ou então num hostel que tenha quartos só para raparigas.


Acordei bem cedo no dia seguinte para aproveitar os meus poucos dias em Roma. Fui até ao tão famoso Colosseo e ao Fórum Romano. Perdi-me pelas ruas da cidade, comi uma pizza - porque não podia ir a Itália sem experimentar a pizza - e sujei a minha blusa de gelado enquanto estava a apreciar a Fontana di Trevi. Estive sempre em sítios com muita gente e isso fez-me sentir segura. Assim que anoiteceu, por volta das 17 horas - porque fui em dezembro - esse sentimento de segurança desapareceu e deu lugar à inquietação. Decidi regressar ao hostel, tomar um banho e preparar-me para jantar num sítio ali perto de “casa”. Pus um batom vermelho, uma blusa preta com gola alta e fui à procura de um sítio onde comer. Pelo caminho, perdi a conta à quantidade de homens que ficaram a olhar e se dirigiram a mim. Apressei o passo porque só queria sair dali o mais rapidamente possível. Jantei e voltei para o hostel, porque não tive coragem de voltar a passear sozinha durante a noite. No dia seguinte fui para a zona do Vaticano e, tal como no primeiro dia, estive em lugares que tinham sempre muita gente. Tentei combater o medo que senti no dia anterior e, mesmo depois de anoitecer, fiquei mais um pouco a aproveitar a cidade, mas sempre com aquela insegurança e com os olhos bem abertos. Cheguei cedo ao hostel, até porque o meu voo era às 7h e dei por terminada esta pequena viagem que fiz sozinha.


Apesar do desconforto e medo em certos momentos, isso não fez com que a experiência fosse má. A maior parte do tempo eu estava no meio de muita gente e sentia-me completamente segura e à vontade. E foram esses momentos que fizeram esta viagem valer a pena. Pode ser assustador a ideia de ir para outro país sozinha. Os perigos estão lá e, infelizmente, vão estar durante muito tempo. O que podemos fazer é ter cuidados redobrados e, por isso, deixo-vos aqui alguns conselhos para se sentirem mais seguras quando forem viajar sozinhas. Em primeiro lugar, e como já disse, tentem ir para um hotel ou para um sítio que vocês sintam que é seguro, não muito longe do centro. Pesquisem sobre o destino, vejam com antecedência os transportes que têm de apanhar e os sítios que querem visitar. Tentem mostrar que não estão para ali perdidas e que sabem exatamente para onde vão. Há quem se aproveite quando vê que alguém está confuso ou perdido. Tentem sempre passear por sítios que têm muita gente e, caso queiram visitar um sítio mais “arriscado”, façam-no durante o dia. À noite, não se afastem muito do sítio onde estão acomodadas. E, mais importante que tudo: mesmo com todos estes cuidados, divirtam-se. É para isso que lá estão. Infelizmente, é neste mundo que temos de viver. Não deixem que nenhum homem vos estrague a experiência de viajar sozinha. E não tenham medo de o fazer, até porque é uma experiência incrível. Não podemos deixar que o medo nos domine e não podemos deixar de fazer aquilo que queremos só porque somos mulheres.

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