Por favor, deixem os velhinhos escolher

Vira o disco e toca o mesmo. O Tribunal Constitucional declarou inconstitucional o projeto de lei que permite a despenalização da eutanásia, por recorrer “a conceitos excessivamente indeterminados”. Sete votos contra cinco. A lei volta para trás para ser reformulada na Assembleia da República e entretanto há quem continue sem poder de decisão no que diz respeito à própria vida. É este o país que temos.


Podíamos estar tão perto, mas voltámos a dar um passo atrás. Enquanto que em países como a Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Suíça a eutanásia já é permitida, em Portugal continuamos a discutir algo que, para mim, já devia ter sido resolvido há muito tempo. Claro que a minha opinião pouco importa e sei que para um projeto de lei ser aprovado é preciso estar tudo em ordem. Espero sinceramente que esta decisão não seja prolongada por muito mais tempo porque é frustrante saber que há quem “viva” em estado terminal, em que a única coisa que sente é dor. Ninguém merece viver assim. A eutanásia é uma questão que tem sido muito debatida no Parlamento e é uma das que causa mais polémica. É oito ou oitenta. Ou são totalmente contra, ou são totalmente a favor. A minha posição é a última. Confesso que, apesar de ser a favor da despenalização da eutanásia, compreendo alguns dos argumentos contra a morte medicamente assistida mas, ainda assim, a minha posição mantém-se e vai manter-se sempre igual. A partir do momento em que falamos da vida de outra pessoa, a decisão de continuar ou não a sofrer todos os dias deve ser unicamente dela. Mesmo que vá contra os princípios de mais de metade da população. Isso pouco importa, quando é a nossa vida que está em causa. E nós é que devemos ter o poder sobre ela. Mais ninguém. Um dos argumentos contra a eutanásia é a de que todos devem viver com dignidade até ao fim da sua vida. Mas até que ponto é que se pode considerar “viver com dignidade” se nem nos dão liberdade de escolha? Se a nossa vida nem sequer está nas nossas mãos? É isso que vocês consideram viver em dignidade?

Quando se fala em legalizar a eutanásia, há quem ache que se vai começar a matar toda a gente que está nos hospitais e que tem uma dorzinha no peito. A essas pessoas aconselho a irem ler os projetos de lei dos vários partidos que defendem a despenalização da morte medicamente assistida. Há uma série de condições que têm de ser vistas e revistas antes de se tomar qualquer decisão.

Sei que há mil e um argumentos contra e a favor da despenalização da eutanásia. Podia ficar aqui o dia todo a falar sobre isto. E compreendo que não seja uma decisão para ser tomada de ânimo leve. Se é para aprovar a lei, que seja uma lei clara e sem “conceitos excessivamente indeterminados”. Só aceito a demora em despenalizar a eutanásia por esse motivo. Espero sinceramente que, no fim, o Tribunal Constitucional tome a decisão certa. Deixem as pessoas viver e morrer com dignidade. Deixem as pessoas escolher.

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