Porquê cancelar em vez de educar?

Antes cancelava-se o ginásio, pacotes da NOS ou a subscrição da Netflix. Agora, até já se cancelam pessoas. Sim, pessoas. É a chamada cultura do cancelamento.




Com o surgimento de redes sociais, como o Instagram e o Twitter, aquilo que nós escrevemos ou partilhamos pode chegar a um número enorme de pessoas, principalmente se tivermos muitos seguidores. E isso é tudo muito bonito, até se dizer ou fazer algo inapropriado. Quando isso acontece, a pessoa é cancelada na hora, mesmo que seja um ídolo de infância. Quando esses tais famosos ou “influencers” são cancelados, então significa que estão excluídos da sociedade e são obrigados a ir viver para Marte. Calma, (ainda) não é assim tão mau. Podem continuar a viver aqui, mas deixam de existir na vida das pessoas que o cancelaram, que vão fazer de tudo para o envergonhar e humilhar em praça pública. Isto acontece quando alguém diz algo que, nos dias de hoje, não é tolerado. Seja comentários racistas, homofóbicos ou machistas e até mesmo atitudes inconscientes. Acontece também cancelaram pessoas só porque preferem o Justin Bieber ao Eminem, ou vice-versa. Há inúmeros motivos para se cancelar os “famosos” nas redes sociais. A cultura do cancelamento tem sido uma prática usada nos últimos anos, sobretudo no Twitter, a rede social mais tóxica de todas e a que eu, por acaso, mais gosto.


Apesar de ser uma das redes sociais que mais uso, não significa que concorde com tudo o que acontece por lá. A maior parte das vezes até saio de lá chateada e irritada com as pessoas. E uma das práticas que me faz confusão é esta cultura do cancelamento, quando acontece a um nível exagerado, podendo provocar problemas graves (a nível psicológico) a quem está a ser cancelado. É verdade que uma pessoa que tem muitos seguidores deve ter mais cuidado com aquilo que diz em público. No entanto, ninguém nasce ensinado e ninguém sabe tudo. Há situações em que não há desculpa possível, mas essas são raras. O que acontece na maior parte das vezes é cancelarem uma pessoa que, de facto, disse uma barbaridade, mas que se nota perfeitamente que não está dentro do assunto. Ou quererem quase crucificar alguém porque se expressou mal num vídeo ou num tweet e acabou por dizer algo que não queria. É normal que isso aconteça. Às vezes sai na frustração do momento. Também eu já disse mil e uma coisas no calor do momento e que só depois de terem saído da minha boca é que eu percebi que não devia ter dito aquilo. E eu agradeço a todas as pessoas que me corrigem e me explicam o porquê de eu ter dito algo de errado. É graças a todos esses erros que, hoje, tenho noção daquilo que é certo e errado. Mas é importante lembrarmo-nos que nem todos têm a mesma educação, que nem todos têm os mesmos conhecimentos e que nem todos têm alguém que lhes chame a atenção quando dizem algo que não se deve dizer.


E colocando tudo isto em perspetiva, não seria melhor e mais pacífico tentar explicar às pessoas o porquê de estarem erradas, em vez de cancelarem, humilharem e ofenderem nas redes sociais? Ninguém é de ferro e os comentários negativos afetam todos, mesmo aqueles que têm mais de 100 mil seguidores. Falem diretamente e em privado com as pessoas, tentem chamar-lhes à razão. E atenção que não estou a falar de casos de violência doméstica, assédio ou abuso sexual. Aí, podem cancelar e enxovalhar as vezes que forem precisas. Mas humilhar publicamente alguém que se expressou mal ou que disse/fez algo errado mas de forma inocente (no sentido de não saber que estava errada) não é a solução. Não sabemos até que ponto as nossas palavras podem afetar os outros. E, uma vez que somos obrigados a viver em sociedade, então sejamos mais humanos e mais amigos do próximo. É realmente triste ver alguém rebaixar e humilhar os outros em público. Até porque ninguém é inocente. Que ponha o dedo no ar quem nunca cometeu um erro na vida. O importante é sermos capazes de o corrigir. Para isso, precisamos de nos educar e deixar que nos eduquem. Não precisamos de ser “cancelados”.


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