Quem faz um filho, fá-lo por gosto

À primeira vista, este título não nos choca e é algo completamente normal nos dias de hoje. O mesmo não se pode dizer quando Simone de Oliveira cantou, pela primeira vez, a Desfolhada.



O poema era de José Carlos Ary dos Santos e a voz inconfundível era a de Simone de Oliveira. Um poema que narrava, sem filtros, aquilo que era uma longa noite de amor. Onde é que já se viu, uma mulher falar sobre o desejo sexual feminino no Festival da Canção? Na altura, Simone de Oliveira era mãe solteira, mas não teve medo de dizer aquela frase que escandalizou as mentalidades mais conservadoras do nosso país: quem faz um filho, fá-lo por gosto. Os portugueses é que, pelos vistos, não gostaram assim tanto de a ouvir, ao ponto de insultarem a cantora nos restaurantes e de a chamaram de puta. Aquela palavra que todos os homens usam quando uma mulher faz algo que não lhes agrada. Uma dessas situações é quando a mulher responde à letra os homens que a insultam. E foi exatamente isso que fez Simone de Oliveira, quando foi insultada num estádio de futebol, enquanto cantava a Desfolhada.


“Eu digo que quem faz um filho fá-lo por gosto, mas não fui eu que escrevi este poema, foi o Zé Carlos Ary dos Santos. Assumo-o com paixão e digo-lhe uma coisa: se o senhor não faz um filho por gosto é porque não pode, não sabe ou já se esqueceu!” - Simone de Oliveira.


A Desfolhada venceu o Festival da Canção em 1969 mas, inicialmente, não era Simone de Oliveira quem ia dar voz ao poema de José Carlos Ary dos Santos. A cantora foi a terceira opção, após Elisa Lisboa e Madalena Iglésias. O 15º lugar na Eurovisão foi um choque, até porque o tema estava entre os favoritos. Supostamente, diz-se que os outros países não entenderem a mensagem da canção, daí só ter terminado a noite com 4 pontos. E estes escassos pontos deveram-se também ao facto de Portugal estar contra a posição da ONU e de outros países da Europa em relação à questão do Ultramar. Tudo isto fez com que aquele que poderia ser o primeiro lugar, fosse na verdade um dos últimos. Mesmo assim, quando regressou a Lisboa, estavam milhares de portugueses à sua espera para a aplaudir e a cantar a música que ficou marcada para sempre no coração dos portugueses. Apesar de não ter vingado no Festival da Eurovisão, a Desfolhada tornou-se um hino do nosso país e, 52 anos depois, ainda o é. Simone de Oliveira é fogo posto, que fez (mais do que) um filho e fê-lo por gosto.



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