Retrospetiva 2020: as séries que me ajudaram a sobreviver à quarentena

Num ano atípico que me obrigou a ficar em casa mais do que o esperado, as séries (e os livros) foram a minha melhor companhia. E vi tanta série boa que era impossível guardar só para mim. Algumas delas ainda não têm o reconhecimento que merecem. Mas é para isso que cá estou!


Eis a lista das séries que me ajudaram a não enlouquecer na quarentena:


  • The Queen's Gambit


The Queen’s Gambit ou o Gambito de Damas - para quem gosta dos nomes traduzidos - foi, para mim, a melhor série de 2020. Quem diria que ia gostar tanto de uma série sobre xadrez, logo eu, que nunca me consegui entender com as regras do jogo. Mas a série não é só sobre xadrez. É sobre empoderamento feminino, traumas de infância e comportamentos autodestrutivos. A série começa com Beth (interpretada por Anya Taylor-Joy que fez um papel de cortar a respiração) a perder a sua mãe num acidente de carro em 1950. Vai para um orfanato e encontra refúgio no xadrez, mas também nos calmantes. O vício no jogo - e não só - acompanha-a até aos 22 anos, altura em que está prestes a tornar-se na maior jogadora de xadrez do mundo. The Queen’s Gambit é a história de uma mulher que entra neste mundo, que era só de homens, e coloca-o de pernas para o ar, ao conquistar aquilo que muitos tentaram e nunca conseguiram. Esta foi, para mim, a grande surpresa de 2020.



  • Hollywood


Hollywood é a nova série do Ryan Murphy que estreou na Netflix a 1 de maio de 2020. E digo desde já que não me lembro de ter chorado tanto como chorei no último episódio desta série, a não ser talvez no último episódio de Six Feet Under, mas isso já é uma história para outro dia. A série, que tem apenas sete episódios, volta atrás no tempo e reescreve a história de Hollywood nos anos 40, - na chamada “era de ouro” do cinema americano - altura em que o racismo e a homofobia estavam bem presentes na indústria cinematográfica. Apesar da história ser fictícia, algumas das personagens existiram mesmo na vida real. Nesta terra dos sonhos de Los Angeles, reescrita por Ryan Murphy, todos têm a oportunidade de se vingar no mundo do cinema. No entanto, uns têm que lutar mais que outros, isto porque a indústria cinematográfica tem uma mentalidade retrógrada no que diz respeito à orientação sexual e à raça. Hollywood é uma viagem ao tempo, que mostra mudanças e conquistas que deveriam ter acontecido bem mais cedo. Porque o mundo é de todos e todos têm lugar no mundo.



  • Ted Lasso

O mais provável é nunca terem ouvido falar desta série. Eu também não tinha se não me tivessem recomendado. E foi a melhor recomendação que já me deram. Já alguma vez viram um treinador de futebol que não percebesse nada do desporto? Pois bem, ele existe e chama-se Ted Lasso. Deixou a vida nos Estados Unidos, em que era treinador de futebol americano numa universidade, para ir treinar numa das maiores competições de futebol: a Premier League. Sem qualquer experiência neste “desporto-rei”, Ted Lasso começou a treinar a equipa fictícia do AFC Richmond, que estava a passar por um mau momento. Como seria de esperar, a vinda do técnico não foi bem vista pelos jogadores e muito menos pelos adeptos. Mas Ted Lasso chegou a Inglaterra, com o seu bigode inesquecível, para conquistar tudo e todos. O que lhe falta em experiência, tem em simpatia e carisma, talvez até demais. Mais do que uma série sobre futebol, é uma comédia com personagens completamente diferentes umas das outras e que nos fazem ficar presos ao ecrã, mesmo para quem não é fã deste desporto. A contratação de Ted Lasso para o AFC Richmond foi uma jogada arriscada, mas acertou em cheio na baliza. Só falta saber se foi na baliza certa.



  • Unorthodox


Com apenas quatro episódios, Unorthodox é a adaptação de um livro autobiográfico de Deborah Feldman (que podem encontrá-lo aqui) onde conta como conseguiu escapar à comunidade judia ultra ortodoxa em que viveu - ou sobreviveu - durante 19 anos. Esty deixa para trás Nova Iorque, a sua comunidade e um casamento infeliz e parte para a Alemanha em busca da liberdade. É lá que se encontra e vai atrás de sonhos que, na sua comunidade, seriam impensáveis para uma mulher. Sonhos tão simples como cantar ou tocar piano. À primeira vista parece uma série que se passa noutra vida. No entanto, esta comunidade, com uma mentalidade tão retrógrada e que não permite à mulher ser livre, ainda existe no século XXI. Esty não cometeu nenhum crime, mas mesmo assim passou grande parte da sua vida numa prisão.



  • Schitt's Creek


Schitt’s Creek fez história em 2020 e levou para casa nove Emmys. Nove! E por algum motivo foi. Admito que não foi uma série pela qual me apaixonei logo no primeiro episódio e precisei de tempo para me habituar à excentricidade dos personagens. Mas com o passar dos episódios fui gostando cada vez mais desta família e desta cidade, que não tem uma única pessoa normal. Schitt’s Creek conta a história da família Rose que perde toda a fortuna e é obrigada a mudar-se para uma pequena cidade - Shitt’s Creek - que tinham comprado quando ainda eram ricos. De uma casa luxuosa passam para dois quartos num motel. A série, que tem seis temporadas, mostra as peripécias e as aventuras desta família que se viu fora do seu habitat natural.



  • The Last Dance


Quando saiu The Last Dance, toda a gente estava a falar sobre este documentário. E eu, como não gosto de ser deixada para trás, segui atrás das tendências e fui dar uma oportunidade, mesmo percebendo pouco de NBA, a maior competição de basquetebol do mundo. The Last Dance é um documentário com 10 episódios que mostra as épocas de sonho dos Chicago Bulls - que venceram seis títulos entre 1991 e 1998 - e a ascensão da lenda do basquetebol, Michael Jordan, nos anos 90. O documentário não se foca só no Michael Jordan, mas também noutros jogadores importantes para o sucesso do Bulls, como o Scottie Pippen, o Phil Jackson e o Dennis Rodman. Assim que acabei o documentário já estava pronta para mandar vir uma camisola dos Chicago Bulls e para me tornar uma espectadora assídua da NBA.



  • Peaky Blinders


Tommy Shelby. Não é o único motivo para ter começado a ver esta série mas é um deles. A outra é o sotaque britânico. Eu costumo ser contra a violência, mas Peaky Blinders é a exceção à regra. A história acompanha os conflitos da família Shelby e as atividades ilegais de um gang - os Peaky Blinders - que provocou a desordem em Birmingham, na Inglaterra, entre finais do século XIX e inícios do século XX. A família Shelby é bastante unida e lutam contra tudo e todos os que se metem no seu caminho. Tommy Shelby é o líder do gang e é uma das minhas personagens favoritas de todos os tempos. É manipulador, violento e não olha a meios para atingir os fins. Tem sempre uma estratégia em mente - mesmo quando está em desvantagem - e quando mete algo na cabeça, ninguém é capaz de o dissuadir. A série conta já com cinco temporadas e cada uma é melhor que a outra.





  • I Love You, Now Die


I love you, now die é um documentário da HBO sobre um dos casos mais falados nos Estados Unidos em 2014. Conrad Roy III e Michelle Carter eram namorados à distância e trocaram milhares de mensagens. Quando tinha 18 anos, Conrad cometeu suícidio ao inalar monóxido de carbono dentro de um carro. Michelle Carter não só não o tentou impedir, como o incentivou a fazê-lo. O documentário, de apenas dois episódios, expõe as mensagens que os dois trocaram e que mostram que Michelle Carter lhe perguntava constantemente quando é que ele ia fazer “aquilo”. Há opiniões divergentes relativamente a este tema, sendo que há quem defenda que a namorada deve ser acusada de homicídio involuntário, enquanto que outros consideram que Conrad é o único responsável pelas suas ações. No documentário são apresentados os vários argumentos, assim como o julgamento da rapariga. São dois episódios intensos sobre um tema tão delicado como este e, mais uma vez, a HBO não desilude.



  • Superstore


Quando me disseram que Justin Spitzer - o produtor de The Office - tinha criado outra série, não pensei duas vezes e dei uma oportunidade a Superstore. Do mesmo género de The Office e Parks and Recreation, Superstore é uma comédia que nos mostra as rotinas e o dia-a-dia dos funcionários que trabalham na Cloud9, uma loja gigante nos Estados Unidos que vende tudo e mais alguma coisa. Quem já trabalhou em retalho certamente se vai identificar com algumas das situações que acontecem neste hipermercado, como a loucura da Black Friday. Na Cloud9 não há um único dia normal. Os funcionários são todos diferentes uns dos outros e é engraçado ver como é que eles conseguem (ou não) trabalhar em equipa. Os episódios só têm 20 minutos e é daquelas séries mesmo boas para ver quando só nos apetece relaxar depois de um longo dia de trabalho.




  • Ratched


Ratched é a segunda série de Ryan Murphy nesta lista. Tem uma história bem mais sombria que Hollywood e tem algumas semelhanças com American Horror Story, também de Ryan Murphy. A série, baseada no filme de 1962 de Ken Kesey, “Um estranho no ninho”, passa-se num hospital psiquiátrico nos anos 40 e conta a história da enfermeira Mildred Ratched, que aparece cheia de segredos e com um passado obscuro. A enfermeira é protagonizada por Sarah Paulson e, sinceramente, não podiam ter escolhido melhor atriz para este papel.



  • After Life


Ricky Gervais, para além de comediante, também já tem uma longa história no mundo da televisão. Já conhecia o trabalho dele depois de ter visto “An Idiot Abroad” e “Derek” e sabia que tinha de ver, obrigatoriamente, After Life. A comédia de humor negro acompanha a vida de Tony após a morte da sua mulher. Torna-se uma pessoa fria, rude e arrogante e não se importa com mais ninguém a não ser ele próprio. É um drama pesado, com momentos que me deixaram com a lágrima no olho, mas outros que me fizeram soltar umas quantas gargalhadas. Gostei especialmente quando ele diz que "não há futuro brilhante no jornalismo". Deixou-me mesmo entusiasmada para terminar o meu mestrado. Ainda assim, é mais um grande trabalho do Ricky Gervais.



  • Don't F*ck with Cats: Hunting an Internet Killer


Mesmo sendo uma pessoa que gosta mais de cães, é impossível ficar indiferente a este documentário. Como bem diz no título: ninguém brinca com os gatos. O aparecimento de vídeos perturbadores na Internet que mostravam atos cruéis aos animais levou a uma caçada online para apanhar o autor desses crimes. Cada vídeo é pior que o outro e bem mais cruel. Ao longo dos episódios, podemos ver como é feita toda a investigação segundo o relato de Deanna Thompson - uma das principais responsáveis que deu início a esta “caça” - até conseguirem descobrir quem é o criminoso. Não é, de todo, um documentário leve e não é recomendado para pessoas mais sensíveis (apesar de eu ser uma delas).



  • Crazy Ex-Girlfriend


Podia fazer-me de forte e dizer que sou uma pessoa que odeia musicais, mas ia estar a mentir. Musicais são uns dos meus maiores guilty pleasures, sem a parte do guilty porque não há que ter vergonha. Crazy ex-girlfriend é uma comédia musical e não se compara a nada do que eu já tenha visto. À primeira vista parece ser a típica comédia romântica em que a personagem principal faz de tudo para ficar com o amor da vida dela. Mas aborda temas tão importantes, como a obsessão amorosa, a saúde mental, a apropriação cultural e estereótipos. A série e as músicas foram criadas por Rachel Bloom, que é também a “crazy ex-gilfriend”. Demorei algum tempo a habituar-me à personagem principal e até mesmo às músicas mas, como (quase) tudo na vida, primeiro estranha-se, depois entranha-se.



  • The English Game


Num ano em que os campeonatos de futebol foram todos suspensos devido à Covid-19, The English Game foi a cura para a ressaca. A série leva-nos aos primórdios do futebol no Reino Unidos, quando os jogadores ainda nem eram pagos para jogar. De um lado uma equipa com operários de classe baixa (Darwen), do outro um clube de elite (Old Etonians). Mais do que futebol, The English Game mostra as diferenças entre classes no final do século XIX. Mesmo com cortes salariais e despedimentos, a classe operária juntava-se para torcer pela sua equipa. A verdade é que, para muitos, nunca vai ser “só futebol”. É muito mais que isso.






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