Retrospetiva 2020: os livros que mereceram 5 estrelas no GoodReads

No meio de tanta coisa má, 2020 trouxe de volta algo que eu já queria há muito tempo: voltar a ler regularmente. E nunca li tantos livros como no ano passado. A verdade é que ter ficado tanto tempo em casa devido à pandemia também ajudou. Tirei o pó a muitos dos livros que estavam na minha estante e foi a melhor coisa que fiz. E como não podia deixar de ser, hoje partilho aqueles que mereceram as minhas 5 estrelas no GoodReads.


  • Kafka à Beira-Mar, Haruki Murakami

Já li vários livros de Murakami e, sinceramente, não há mais nenhum que se compare a Kafka à Beira-Mar. Não se assustem com o número de páginas que o livro tem, é uma leitura fácil e fluída e lê-se num instante. Kafka à Beira-Mar narra, intercaladamente, as histórias de duas personagens completamente diferentes: Kafka Tamura, que foge de casa aos 15 anos; Sotoru Nakata, um idoso que sofreu um acidente que afetou as suas capacidades cognitivas quando era criança e que agora se dedica a procurar gatos desaparecidos. À primeira vista, não vemos qualquer tipo de relação entre estas duas personagens, mas os seus caminhos acabam por se cruzar. Uma história diferente, onde os gatos conversam com pessoas e os peixes caem do céu. Fiquei completamente presa a esta narrativa e é, sem dúvida, um livro que gostava de reler mais tarde.



  • Os Miseráveis, Victor Hugo

Um dos maiores (literalmente) clássicos de todos os tempos. 2020 foi o ano em que, finalmente, arranjei coragem para ler as 1463 páginas escritas por Victor Hugo, que retratam a injustiça social no século XIX, em França. O romance acompanha a vida de um homem que nunca foi perdoado pela sociedade por ter roubado um pão para saciar a fome da sua família. Apesar do livro ter sido escrito há mais de 100 anos, a leitura é envolvente e não é nada complicada, ainda que Victor Hugo não tenha poupado detalhes quando escreve sobre alguns acontecimentos, como foi o caso da Batalha de Waterloo ou o episódio nos esgotos de Paris. Estas partes mais descritivas, que parece que nunca mais chegam ao fim, são os grandes obstáculos para quem está a ler os Miseráveis, mas não é um bicho de sete cabeças, até porque tudo o que Victor Hugo escreve serve para dar um contexto histórico daquilo que estava a acontecer em França no século XIX. Esta leitura foi, sem dúvida, uma grande jornada. Posso dizer que nunca li nada como Os Miseráveis e senti-me uma pessoa completamente diferente quando acabei de ler este romance.



  • Flores para Algernon, Daniel Keyes

É impossível ficar indiferente depois de ler Flores para Algernon. O livro conta a história de Charlie Gordon, um homem que nasceu com Deficiência Mental Severa, mas que foi escolhido para se submeter a uma cirurgia que prometia mudar a sua vida, ao elevar o seu QI. A história é apresentada na forma de um diário, escrito pelo próprio Charlie, onde podemos acompanhar a evolução que ele vai tendo depois da cirurgia. Primeiro vê-se um progresso enorme na forma de escrever (já não comete erros de pontuação e construção de frases), depois na forma de pensar e de agir. Mas se acham que o livro é um mar de rosas, não podiam estar mais enganados. Se antes Charlie era inocente e feliz à sua maneira, depois da cirurgia começou a perceber que existia maldade no mundo, a começar pelos seus “amigos”. A perceção que Charlie tinha do mundo começa a mudar e a alegria dá lugar à inquietação e à melancolia. É um livro triste, emocionante e perturbador, que nos aperta o coração, principalmente no final.



  • O Filho de Mil Homens, Valter Hugo Mãe

O Filho de Mil Homens foi a minha estreia com Valter Hugo Mãe e não podia ter corrido melhor. Nesta obra conhecemos o Crisóstomo, a Camila, a Isaura, o Antonino e a Matilde que, apesar de não serem do mesmo sangue, tornaram-se numa família. Estas personagens completam-se e preenchem o vazio que existe em cada uma. Do crisóstomo, que tem de lidar com a tristeza de nunca ter tido um filho; da Isaura, que nunca conheceu o verdadeiro amor; ou de Antonino, que é desprezado pela mãe por ter nascido diferente. É através do destino e dos encontros inesperados destas personagens - que não tinham qualquer ligação - que nasce uma nova família. No fundo, O Filho de Mil Homens é uma história de amor que prova que somos nós que escolhemos quem é a nossa família e que o amor está acima de tudo. Valter Hugo Mãe tem uma escrita muito própria e poética e é impossível ficar indiferente a certas frases que surgem ao longo da história, por serem tão profundas e por nos fazerem refletir sobre a importância da família, seja ela de sangue ou não.



  • O Triunfo dos Porcos, George Orwell

O Triunfo dos Porcos, juntamente com “1984”, são as duas grandes obras de George Orwell e por algum motivo é. Já li muitos livros sobre revoluções, mas nunca uma revolução dos porcos. A verdade é que também eles têm o direito de se impor e dizer: basta! Queriam uma vida melhor e por isso expulsaram os seres humanos da sua fazenda, escreveram sete princípios (um deles é que todos os animais são iguais) e começaram a viver por conta própria. E tudo corria bem, até que os porcos começaram a aproveitar-se da inocência dos outros animais para terem mais poder. Os sete princípios da revolução começaram a ser reescritos durante a noite, de modo a justificar as atitudes dos porcos que iam contra os mandamentos iniciais. Mas como tudo na vida, nada dura para sempre e os outros animais abriram os olhos e perceberam que “todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros”. O livro é considerado uma sátira ao autoritarismo dos regimes totalitários (como a União Soviética na época de Estaline), ao reforçar que os valores iniciais nem sempre se mantêm e, como aconteceu nesta fazenda, os mais fortes aproveitaram-se dos mais fracos e a democracia tornou-se numa ditadura dominada pelos porcos.



  • A Mulher que Correu Atrás do Vento, João Tordo

São poucas as histórias que me chocam ao ponto de precisar de pousar o livro para voltar a respirar fundo. A Mulher que Correu Atrás do Vento foi uma delas. O livro é sobre quatro mulheres (Lisbeth Lorentz, Beatriz, Graça Boyard, Lia Boyard) que, apesar de terem vivido em épocas e cidades diferentes, têm uma história poderosa que as une. João Tordo explora o sofrimento e a dor de cada uma das personagens de forma tão intensa e profunda que, por momentos, eu própria senti que estava na pele delas. É um livro melancólico e que nos esgota psicologicamente, mas vale a pena saborear cada página e cada palavra escrita por João Tordo. Foi a primeira obra que li do autor e, certamente, não será a última.



  • A Máquina de Fazer Espanhóis, Valter Hugo Mãe.

Depois de me ter apaixonado pelo Filho de Mil Homens, não esperei muito tempo até voltar a ler Valter Hugo Mãe. E se eu achava que era impossível superar o primeiro livro que li do autor, então estava completamente enganada. A Máquina de Fazer Espanhóis conseguiu superar as minhas expectativas - que já estavam bem altas - e tornou-se num dos meus livros preferidos de 2020. Valter Hugo Mãe conta-nos a história de António Silva, de 80 anos, que vai viver para o Lar da Feliz Idade depois da morte da sua mulher, Laura. Depois de quase 50 anos casado, António Silva viu-se sozinho, num sítio onde não conhecia ninguém e onde o sentimento de perda e abandono se intensificou. O autor aborda a solidão, os anseios e as angústias de quem acredita que já viveu tudo o que tinha para viver. O que António Silva não sabia é que nunca se é velho demais para aproveitar a vida, para criar novas amizades e apreciar a simplicidade de cada momento. A Máquina de Fazer Espanhóis foi, sem dúvida, um dos meus livros preferidos de 2020 e, mais uma vez, Valter Hugo Mãe voltou a conquistar o meu coração.



  • As Vinhas da Ira, John Steinbeck

As Vinhas da Ira foram uma autêntica viagem de caravana, parecida àquela que a família Joad teve de fazer até à Califórnia em busca de trabalho, depois de terem sido obrigados a abandonar a sua casa em Oklahoma durante a Grande Depressão. A história acompanha a viagem trágica - e cheia de altos e baixos - da família Joad, que sempre mantiveram a esperança de arranjar trabalho assim que chegassem à Califórnia, a “Terra Prometida”, onde (supostamente) havia trabalho para toda a gente. E, de facto, havia. O problema é que, devido à enorme quantidade de pessoas que foram à procura de emprego, o salário era cada vez mais baixo e o dinheiro não chegava nem para alimentar os filhos. John Steinbeck retrata a pobreza extrema, a desumanização e as condições miseráveis que se vivia nos anos 30.



  • A Trança de Inês, Rosa Lobato de Faria

A história trágica de Pedro e Inês de Castro é o “Romeu e Julieta” português e é uma das lendas mais românticas do nosso país. E se o fim trágico entre Pedro e Inês de Castro não acontecesse uma, nem duas, mas três vezes? Rosa Lobato de Faria decidiu que uma vez não era suficiente e reescreveu a narrativa em três tempos diferentes: no passado, presente e futuro. Num só livro viajamos para um romance histórico, um romance atual e ainda um romance num futuro distópico. E em todos eles, como não podia deixar de ser, a tragédia permanece. Rosa Lobato de Faria tem uma escrita muito própria, com diálogos e os três tempos misturados e com pouca pontuação, fazendo até lembrar a escrita de José Saramago. No início pode parecer um pouco complicado, mas à medida que vamos lendo a distinção entre os três tempos é feita quase automaticamente. O livro foi uma surpresa, até porque não estava à espera de gostar tanto (já para não falar que teve um final incrível) e, por isso, mereceu as cinco estrelas no GoodReads.




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