Vamos ter uma geração mais desapegada?

Não é novidade nenhuma que a Covid-19 não atinge as crianças da mesma forma que os adultos. Ainda assim, não significa que sejam menos afetadas por este vírus. Como será o futuro destas crianças, que estão a crescer sem poder tocar e abraçar os amigos?


Créditos: Shutterstock


Se o toque é importante para nós - que somos adultos - para as crianças, que gostam de tocar em tudo e mais alguma coisa, ainda é mais. Com a Covid-19 e o distanciamento social, as crianças ficaram impedidas de ser crianças. “Não toques nisso”, “não brinques com os teus amigos”, “não te aproximes das pessoas” são avisos que, infelizmente, começaram a fazer parte do dia-a-dia dos mais novos. A juntar a isto, é importante relembrar que as crianças, que não conseguem estar paradas no mesmo sítio e precisam de apanhar ar puro, de um dia para o outro foram obrigadas a ficar fechadas em casa, apenas com a companhia dos pais (alguns deles em teletrabalho e por isso sem conseguirem dar a atenção que os filhos precisam), rodeadas de notícias e imagens sobre este vírus que elas não sabem bem o que é (nem nós), mas têm noção que é perigoso. Tudo o que nos é ensinado quando somos pequenos acompanha-nos para o resto da vida e acaba por nos moldar enquanto pessoas. Assim, como vai ser o futuro destas crianças que passaram um ano, ou mais, com todas estas restrições? Vão crescer e ser pessoas mais desapegadas ou antissociais?


Martin Grunwald, professor de psicologia da Universidade de Leipzig, explica que o contacto físico é essencial nos primeiros anos de vida para que as crianças se desenvolvam. Sem esquecer ainda que um abraço pode fazer toda a diferença e dá a sensação de segurança, conforto e confiança. Da mesma forma que há animais que treinam as suas crias para conseguirem caçar comida ou para se protegerem de predadores para conseguirem sobreviver, também os humanos treinam os filhos para irem à busca de um toque amoroso e reconfortante quando criam conexões com os outros. À medida que as crianças crescem começam a interagir com outras da mesma idade e vão aprendendo umas com as outras através de brincadeiras e atividades. Tudo isto vai aprimorar as habilidades sociais que nos vão acompanhar durante o resto da nossa vida. Aquilo que somos hoje deve-se às experiências e aos ensinamentos que tivemos ontem. Portanto se ontem se ensinar que é perigoso abraçar ou brincar com um amigo, esse medo de proximidade física pode permanecer durante dias ou anos, mesmo quando voltarmos à normalidade. O problema é que aquilo que é normal para nós, já não é normal para estas crianças, que estão a crescer com o medo de tocar em algo ou alguém. E se isso realmente acontecer? Será que esta nova geração vai ficar marcada - na forma de se conectar com os outros - por esta pandemia?


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